quarta-feira, 2 de outubro de 2013

auto da barca de outro inferno


No trem da periferia São Paulo é cidade purgatório. O mundo acabou ali e ninguém deu por nada porque se estava com pressa para o trabalho. O apocalipse aborreceu-se, fez a cama nos latões, cobriu-se de nevoeiro, não assusta vivalma, não tem vivalma para assustar. Dentro do trem as pessoas presas pelas mãos, penduradas nos ferros como os outros bichos, também pendurados nos ferros, mas estes presos pelos pescoços, dentro dos outros açougues. Todos vão mortos, mas estes, os do trem, vão para o trabalho. Não há nenhum som excepto o ritmo educado e deslizante do andamento do trem, insuportavelmente neutro, quase não se ouve e por isso quase ensurdece. O barulho não precisa de ser muito para ser demasiado - o grito, ensinou Munch, não assusta porque estridente, não assusta porque esgano arrepiado da goela, assusta porque boca buraco negro fundo abismo de tripas e de alma. Eu esfrego as mãos uma na outra para me lembrar, porque aflitivamente ásperas, porque frias, que vivas. Os ecrãs

Oitenta e quatro homicídios em São Paulo

Letras amarelas no fundo vermelho, letras vermelhas no fundo da terra e nas solas dos pés, repetidas com banalidade de Warhol dezenas de vezes na carruagem e nas outras carruagens em que não estou e nas carruagens dos outros comboios em que não estou e em todas as carruagens e em todos os comboios reflectidas no plástico dos bancos, na humidade dos vidros, nas testas carecas, no verniz dos sapatos, e em vez de mais de oitenta e quatro homicídios porque oitenta e quatro homicídios multiplicados em todas as carruagens de todos os comboios e nos reflexos de todos os vidros e de todos os plásticos e de todas as testas e de todos os sapatos, cada vez menos que oitenta e quatro, cada vez demasiados oitentas e quatros para as almas do purgatório se espantarem que efectivamente oitenta e quatro antes do ecrã virar dourado e

Horóscopo

Alguém tosse, uma alma menos morta que e é como os outros bichos nos outros açougues quando mexem uma orelha ou uma pata, menos mortos também.

Não há nenhum lugar na terra onde dorme o apocalipse. Há só os nomes das estações do trem que são os números das gavetas - gavetas da morgue, ossários, cuvettes de carne - onde se arrumam as almas do purgatório à noite, quando vêm do trabalho.

“À barca, à barca, houlá!”

chamava o diabo os outros à barca e os outros, porque fidalgos, porque onzeneiros, porque alcoviteiras , não queriam ir na barca, pouco felizes porque na outra não cabiam, lá foram com o cu a arder a dizer que não, a dizer que não porque cientes que mortos e por isso menos mortos, menos mortos que estes que aqui vão e não dizem que não ou que sim e só tossem às vezes porque não cientes que mortos e por isso mais mortos, estes vão na barca e não dizem nada porque acham que vão no trem e estão com pressa para o trabalho.


Sara Frazão Monteiro

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